Herpes sem traumas!

Se você nunca teve herpes, provavelmente já viu alguém com os sintomas do vírus. Trata-se de uma doença infecciosa muito contagiosa, geralmente benigna, causada por dois vírus da família dos Herpesviridae. O tipo 1 é conhecido comumente como herpes labial e o tipo 2, como genital, ambos são chamados de herpes simples. Existem pelo menos mais seis tipos de vírus que também são chamados de herpes, mas que apresentam diferentes sintomas e tratamentos.

Uma dessas doenças é causada pelo vírus Varicela-herpes-zoster, que a gente conhece melhor com o nome de catapora. Além do nome em comum, o herpes labial e genital tem outra questão similar à catapora: uma vez que o vírus se instala e se manifesta, nosso corpo combate seus sintomas, mas ele fica alojado em nosso organismo, de forma inativa. Ou seja, passamos a vida com o vírus, mas só desenvolvemos seus sintomas uma única vez. É assim com a maioria das pessoas que tem herpes labial e genital.

Segundo o dermatologista Omar Lupi, professor do curso de Imunologia e Alergia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e chefe do Serviço de Dermatologia da Policlínica Geral do Rio de Janeiro, “cerca de 90% da população mundial possui o vírus do herpes. Desses, somente 10% não têm uma imunidade eficiente para a doença, e por isso ela volta a se manifestar de tempos em tempos”. O espaçamento entre uma manifestação e outra varia, mas, em média, ocorre de quatro a seis vezes por ano.

Embora o herpes se manifeste geralmente nos lábios ou na região genital, em alguns casos pode ocorrer no nariz, olhos, bochecha, nádegas e coxa. Há casos mais sérios em que a doença pode desencadear sequelas irreversíveis. Por isso, o ideal é procurar um médico ao observar os primeiros sintomas.

Como atua?

O herpes é altamente contagioso, tanto que é uma das doenças mais disseminadas no mundo. “Para se ter uma ideia, a hepatite, por exemplo, acomete 2% da população mundial e a AIDS, menos de 1%. Enquanto o herpes, como já dissemos, afeta 90%”, afirma Lupi. Segundo uma pesquisa realizada pelo dermatologista, com crianças de até 12 anos, 50% delas já continham o vírus. “Isso mostra como o herpes labial é mais facilmente disseminado na infância, quando as crianças costumam levar objetos à boca e dividir copos e talheres”, afirma. Já o herpes genital tem maior incidência de contágio na adolescência, quando há início da vida sexual.

Depois da primeira exposição ao vírus, ocorre um período de incubação que dura cerca de três a sete dias. Durante esse espaço de tempo, não existem sintomas, e o vírus não pode ser transmitido para outras pessoas.

“A transmissão ocorre quando uma pessoa com o herpes manifestado encosta na pele de outra – seja o herpes labial ou genital. No caso do labial, o contato é ainda mais fácil, ao usar os mesmos copos e talheres ou beijar. O herpes genital é mais comumente passado por meio de relações sexuais”, diz Luis Fernando Aranha Camargo, infectologista do Hospital Albert Einstein de São Paulo.

Uma vez em contato com o vírus, a pessoa passa a ser portadora, e não há cura. O vírus entra pela pele e se aloja em uma estrutura nervosa chamada gânglio paravertebral. Embora em algumas pessoas as bolhas e a infecção ocorram sempre na mesma região, não é possível sanar a doença fazendo nenhum tipo de intervenção ou cirurgia local. “Por mais que o herpes se manifeste sempre no mesmo local do lábio, por exemplo, não adianta fazer uma cirurgia local de retirada das bolhas que se formam, porque a causa viral não está alojada ali, mas no sistema nervoso”, explica Lupi.

Para a maioria das pessoas o vírus só será incômodo uma vez, ficando adormecido. Para 10% das pessoas que contêm o herpes, sua manifestação é eventual, pois elas não possuem um sistema imune eficiente para esse vírus específico. Lupi diz que “isso não significa que as pessoas tenham um sistema imune ruim como um todo, mas que para o herpes, em específico, o organismo não consegue reagir para combatê-lo”. Apesar de não ter cura, é possível perceber os primeiros sinais da manifestação da doença e anulá-la antes do aparecimento das bolhas.

Principais sintomas

“Normalmente a pessoa que tem o herpes labial sente um discreto ardor, prurido (coceira) poucas horas antes de surgirem as lesões características do herpes, que são as vesículas (pequenas bolhas) agrupadas, com inchaço e vermelhidão por baixo. Essas bolhas podem infectar e apresentar pus, que depois se rompem e formam pequenas feridas”, descreve a dermatologista Alexandra Bononi, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Sociedade Americana de Dermatologia. Além desses sintomas mais comuns, em alguns casos também há queixas de mal-estar, febre e desconforto.

Depois dos primeiros sinais de coceiras, ardências ou fisgadas, costumam passar de 6 a 12 horas antes que as bolhas surjam, se rompam e causem as lesões. Por isso, é possível evitar os machucados ao sentir os primeiros sinais. “Varia de pessoa para pessoa, mas algumas conseguem perceber os sinais de que o herpes está se manifestando, e é aí que o medicamento tópico ou oral deve ser utilizado para anular as lesões”, conta Lupi.

Fatores desencadeantes
Uma vez com o vírus, cada pessoa deve ficar atenta para perceber quais os fatores que desencadeiam o processo do herpes. “Os mais comuns são a queda de imunidade, traumas, cansaço, estresse, exposição ao sol ou ao frio intenso e tensão emocional”, afirma Alexandra.

Por isso, para as pessoas com herpes que programaram viagens para o final do ano, se estão indo para a praia ou para a montanha, é importante ficarem atentas aos primeiros sinais de manifestação do vírus para utilizar a medicação apropriada e evitar as lesões. Pois, assim é possível evitar o desenvolvimento desagradável das bolhas e inflamações.

De maneira geral, é importante cuidar do sistema imunológico e procurar se hidratar e se alimentar bem, mesmo fora da rotina e nas festas de final de ano, quando costumamos exagerar nos alimentos, bebidas e poucas horas de sono.

Diagnóstico
Nos casos típicos, é suficiente o exame clínico, pois os sinais costumam ser característicos e reconhecidos rapidamente pelo médico habilitado. “Em situações especiais, pode ser necessária a identificação do vírus por meio do exame citológico da lesão ou mesmo a comprovação laboratorial de outros órgãos atingidos”, conta Alexandra.

Quando é necessária uma confirmação mais precisa, o médico pode colher material das bolhas para isolar o vírus – este exame é positivo em 50% a 80% dos casos de herpes genital. Existem também alguns exames de sangue que são mais utilizados com finalidade de pesquisas, pois indicam apenas se a pessoa possui ou não o vírus, mas não indicam se ela sofrerá uma crise ou se poderá se tornar contagiosa.

Como tratar
A única maneira de evitar o contágio é não entrar em contato com lesões evidentes. E, como a maioria das doenças virais, o herpes não tem cura. A dermatologista Alexandra alerta que as vacinas existentes ainda não são completamente eficientes.

As medicações orais mais utilizadas para evitar as lesões são aciclovir, famciclovir e valaciclovir. Esses remédios evitam a multiplicação do vírus e diminuem o tempo de duração das crises. Quando há lesões, é preciso ter cuidado para não espalhar o vírus de uma parte do corpo para outra. “O ideal é evitar tocar os olhos ou a boca depois de encostar nas bolhas. Lavar as mãos com frequência também ajuda”, orienta Camargo. No caso do herpes genital, para evitar o contágio é fundamental o uso de preservativos.

O dermatologista Lupi acredita que é possível ter um controle sobre as manifestações da doença e cuidar para que não surjam lesões. O infectologista Camargo diz que a maioria das pessoas não tem esse discernimento e, por isso, não conseguem evitar os sintomas incômodos. “Nos casos em que a manifestação do herpes se torna mais frequente, é possível fazer um tratamento de prevenção com remédio antiviral por tempo prolongado”, diz Camargo.

Para atenuar os sintomas do herpes, além dos medicamentos, Lupi sugere algumas modificações na dieta alimentar. “O vírus do herpes tem uma estrutura simples, é uma proteína que protege o material nucleico do vírus. Essa cápsula, no caso do herpes especificamente, é composta majoritariamente de um tipo de aminoácido que também é encontrado em certos alimentos – quanto mais forem ingeridos, mais vão fortalecer o vírus”, explica. O ideal é diminuir o consumo de chocolate, principalmente os mais amargos, além de frutas como abacaxi, quiuí e sementes oleosas – amendoim, castanha, pistache e avelã.

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